
A arquitetura da maior fraude financeira da história do Brasil jamais teria sido possível se Daniel Vorcaro, do Banco Master, não tivesse se associado ao empresário baiano Augusto Lima, no final de 2018. E Augusto Lima, o Guga, não teria prosperado sem a ajuda direta dos políticos petistas mais famosos da Bahia, Jaques Wagner e Rui Costa.
O relatório da PF sobre Wagner teve há alguns dias seu sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Só que o documento de 98 páginas passa apenas de raspão na origem do caso Master: o cartão Credcesta, que não tem nada de cesta.
Tratava-se de um produto financeiro estatal que foi vendido pelo PT da Bahia e turbinado pela administração petista para dar lucro na iniciativa privada.
O Credcesta era voltado para conceder empréstimos consignados a funcionários públicos baianos. Cobrava juros sempre mais altos do que os praticados pelo mercado. Uma mina de ouro na forma de benemerência dada pelo Estado da Bahia governado pelo PT. O Credcesta enriqueceu Augusto Lima, que se associou a Vorcaro.
Em suma, o PT da Bahia deu régua e compasso para Augusto Lima e Daniel Vorcaro. Depois, eles levaram a tecnologia
para 24 Estados e 176 cidades. Ficaram bilionários.
Quando ainda era estatal, a operação do Credcesta era considerada um mico pelo mercado. O governo da Bahia queria se
desfazer dessa operação, criada nos anos 1980 por Antônio Carlos Magalhães (1927- 2007). O cartão replicava o que existia há décadas em mercearias pelo interior do Brasil: venda fiado de produtos.
ACM criou um sistema em que os 280 mil funcionários públicos da Bahia podiam comprar alimentos numa cadeia de supermercados montada pelo governo estadual. Posteriormente, o modelo evoluiu para a utilização de um cartão (o Credcesta, nascido no Cesta do Povo) em que o valor gasto só caía no fim do mês, descontado dos salários. Isso mesmo: a Bahia tinha uma rede estatal de supermercados, a Ebal (Empresa Baiana de Alimentos).
Ao longo dos anos, a Ebal se tornou uma catástrofe financeira e uma usina de problemas. O PT comanda a Bahia desde
2007. O partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um fervoroso admirador de operações estatais, mas logo percebeu que esse negócio não poderia ser recuperado nem nunca daria certo.
Houve duas tentativas frustradas de venda da Ebal pelo PT no governo da Bahia.
Ninguém se interessou em assumir o negócio.
Na 3ª tentativa, em 2018, o ativo foi privatizado pelo então governador, Rui Costa (PT). O Estado da Bahia recebeu um
valor simbólico: R$ 15 milhões.
A operação foi esquisita. Participaram um empresário espanhol e outro da Bahia, mas o comprador real e definitivo dessa geringonça deficitária foi Guga Lima. Os outros 2 nunca mais apareceram.
Até participar do processo de privatização da Ebal e do Credcesta, Augusto Ferreira Lima era conhecido por negócios de médio impacto.
Ele havia tido, por exemplo, uma operação de venda de abadás em Salvador. Atuava um pouco no mercado imobiliário. Nada que chamasse muito a atenção.
Tudo mudou com o Credcesta. Nas mãos de Guga Lima, o negócio micado virou uma potência da noite para o dia. Ele não fez mágica nem é um mestre em modelos de administração. Só fez política alicerçada em sólidas relações de amizade com os poderosos da política da Bahia.
Antes de comprar a Ebal e o Credcesta, Guga Lima articulou tudo com os 2 políticos mais relevantes do PT da Bahia –Rui Costa, já mencionado, e o hoje senador Jaques Wagner.
Nas conversas, Guga deixava bem claro: a Ebal e seus supermercados não valiam nada.
O Credcesta, sim, tinha um grande potencial.
Não para comprar comida fiado. Mas para virar um cartão para empréstimos consignados –o que não era a finalidade inicial, quando o negócio havia sido concebido décadas antes.
Os petistas baianos entenderam direitinho.
Foram generosos com Guga Lima. Apenas 16 dias depois de o Credcesta ter sido privatizado, o novo dono recebeu um presente: foram baixados 2 decretos estaduais que mudaram o jogo.
Os decretos foram articulados em 2018, com Jaques Wagner ainda atuando como secretário estadual de Desenvolvimento
Econômico da Bahia. Coube ao então governador, Rui Costa, assinar essas medidas. Os documentos eram muito falados,
mas as íntegras andavam sumidas.