Bahia, 12 de Junho de 2021
Por: CNN Brasil
10/05/2021 - 07:10:02

A principal atividade física praticada pela maior parte dos brasileiros durante a pandemia é o revezamento entre sentar-se em frente à televisão e ao computador. O tempo médio que as pessoas passaram vendo TV por dia no ano passado foi de três horas (aumento de uma hora e 20 minutos comparado a antes da pandemia). Foram mais de cinco horas diante da tela do computador, em média (uma hora e meia a mais do que antes da pandemia).

Essas são algumas das constatações divulgadas pelo Projeto Convid – Pesquisa de Comportamento – levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). De acordo com o estudo feito no ano passado com 44.062 brasileiros, 62% dos entrevistados deixaram de fazer qualquer tipo de exercício durante a pandemia. 

A combinação de falta de atividade física + longas horas sentado é perfeita para o desenvolvimento de uma série de problemas de saúde, alertam os especialistas. “Esses são os principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral”, alerta Cléa Simone Sabino de Souza Colombo, médica especialista em Cardiologia, Ergometria e Reabilitação pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). 

Muitos estudos laborais demonstraram também que o risco da diminuição da expectativa de vida é proporcional ao tempo que a pessoa passa sentada. 

Um levantamento feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e publicado no British Journal of Sports Medicine analisou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 54 países sobre o tempo médio que as pessoas permaneciam sentadas. A conclusão foi que até 4% das mortes no mundo poderiam ser evitadas se os indivíduos se movimentassem mais e ficassem três horas a menos na mesma posição. 

Outro trabalho, publicado na revista médica britânica "The Lancet”, mostrou que ficar sentado durante oito horas por dia aumenta em 10% o risco de morte. De acordo com os autores, para cada oito horas sentado, é necessário praticar entre 60 e 75 minutos de atividade física para evitar os efeitos negativos da vida sedentária.

As dores do home office

Desde o início da pandemia, quase oito milhões de brasileiros passaram a trabalhar em home office, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além de ficar mais tempo sentadas, isso também significa que as pessoas trocaram locais ergonomicamente projetados pela mesa da cozinha, pelo sofá ou pela cama. 

O imobilismo e a ergonomia inadequada durante a realização do trabalho são os principais responsáveis pelo aumento dos casos de dores no corpo relatadas por trabalhadores em home office, segundo o ortopedista João Paulo Bergamaschi, traumatologista pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Um estudo italiano publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health  avaliou um grupo de trabalhadores em home office e mostrou que 70% deles apresentaram algum tipo de dor ou agravamento de dor pré-existente. 

Esses incômodos surgem porque a circulação sanguínea tem a função de transportar o sangue para todo o corpo, saindo do coração e voltando para ele, contra a gravidade. E o bom funcionamento desse retorno depende da contração muscular das pernas, principalmente da panturrilha, considerada o ‘coração das pernas’, segundo o cirurgião vascular Rodrigo Gomes de Oliveira, professor de Angiologia e Cirurgia Vascular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

“Quando ficamos sentados, esta bomba muscular para, e o sangue não circula, acumulando-se nos membros inferiores. Se a pessoa tiver problemas circulatórios como varizes, há risco de agravar este quadro e até de desenvolver complicações mais graves, como a trombose”, alerta o médico.

Cuidado com a postura

Um problema postural muito comum de quem trabalha sentado é inclinar o corpo para a frente, o que leva a uma curvatura inadequada da coluna, ocasionando dores ou piorando quadros de hérnia de disco e problemas do nervo ciático, segundo o cirurgião vascular Rodrigo Gomes de Oliveira. 

Ele diz que essa má postura também faz com que os pulmões tenham menos espaço para se expandir, limitando a respiração e reduzindo a concentração de oxigênio no sangue. “O cérebro é muito sensível a esta redução de oxigenação, o que prejudica nossa capacidade de concentração”, conclui.

Por isso, além de evitar ficar na mesma posição por muitas horas, o médico sugere fazer adaptações no local de trabalho, com cadeiras e mesas com altura ajustadas para cada pessoa, e usar um apoio para elevar os pés, com objetivo de diminuir o inchaço e as dores.

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