
A conhecida “Lenda dos Dois Amigos do Deserto” conta, que dois velhos companheiros atravessavam juntos uma longa jornada quando, em determinado momento de desentendimento e raiva, um deles desferiu um bofetão no rosto do outro.
Sem guardar rancor, o amigo agredido abaixou-se e escreveu na areia: “Hoje, meu melhor amigo me bateu no rosto”.
Mais adiante, os dois decidiram parar para um banho. Em dado momento, justamente o homem que havia levado o tapa começou a se afogar. O outro, rapidamente, lançou-se às águas e conseguiu salvá-lo.
Depois de recuperado, o homem pegou uma pedra e nela escreveu: “Hoje, meu melhor amigo salvou minha vida”.
Intrigado, o companheiro perguntou:
— Quando lhe bati, você escreveu na areia. Agora, depois que lhe salvei, escreveu na pedra. Por quê?
O amigo respondeu:
— As ofensas dos amigos devemos escrever na areia, para que o vento do tempo as leve. Já a gratidão e os gestos verdadeiros devem ser gravados na pedra, para jamais serem esquecidos.
A possível presença do senador Otto Alencar na festa do genro, o deputado federal Neto Carletto, em Eunápolis, neste sábado, 23, é, naturalmente, um gesto familiar, legítimo e compreensível. Ninguém pode condenar um sogro por prestigiar momentos de festividade da família.
No entanto, na política, os gestos nunca caminham sozinhos. Eles carregam símbolos, mensagens e sinais. E foi exatamente isso que os antigos aliados de Eunápolis, enxergaram nessa atitude: um silencioso distanciamento de velhas amizades políticas construídas ao longo de décadas. E fortalecidas com lealdade.
Otto sempre cultivou a imagem de homem equilibrado, conciliador e fiel aos companheiros de caminhada. Por isso mesmo, determinadas aproximações recentes acabam causando desconforto entre lideranças históricas eunapolitanas, que estiveram ao seu lado em tempos difíceis, enfrentando batalhas eleitorais e crises partidárias.
Na política baiana, onde alianças são erguidas tanto pela conveniência quanto pela lealdade, a ausência de certos gestos também fala alto. E talvez seja exatamente esse o sentimento que paira entre antigos amigos: o de que algumas relações estão sendo deixadas para trás, não por enfrentamentos diretos, mas pelo silêncio das escolhas.
A política não exige fidelidade eterna, mas cobra coerência com a própria história. E os velhos amigos — aqueles que ajudaram a construir trajetórias — dificilmente esquecem quando percebem que já não ocupam o mesmo espaço de antes.
No fim, a velha lenda do deserto ensina que há coisas que o tempo apaga como areia ao vento, mas há também marcas que ficam gravadas na pedra da memória.