Bahia, 24 de Janeiro de 2026
Por: drauziovarella.uol.com.br
24/01/2026 - 08:02:55

O péssimo resultado de ⅓ das instituições de ensino médico no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica 2025 (Enamed), divulgado esta semana, causou espanto nas redes sociais e na imprensa brasileira. Para quem acompanha o assunto, no entanto, não foi surpresa ver em números aquilo que já sabemos: boa parte das instituições médicas forma mal seus alunos.

A prova  do Ministério da Educação (MEC), conduzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), visa avaliar o desempenho dos estudantes e a qualidade de ensino das faculdades de medicina brasileiras. O resultado foi bem abaixo do satisfatório: 30% tiraram notas 1 e 2 de um total de 5 pontos, valores considerados baixos.

Dados do Enamed

Ao todo, foram avaliados 89 mil alunos que cursam semestres diferentes dos cursos de medicina de 351 instituições. Dos  cerca de 39 mil que estão na fase final do curso, ou seja, perto de se lançarem ao mercado de trabalho para atender a população, somente 67% teve o que o Inep classificou como “resultado proficiente” – um nível satisfatório de conhecimento para a prática médica.

Os piores desempenhos ficaram com as instituições privadas com fins lucrativos, com 58,4% dos cursos nas faixas 1 e 2. Já os melhores resultados (4 e 5) concentraram-se sobretudo no setor público federal e estadual. Dos cursos federais, 87,6%  alcançaram os conceitos mais altos, ante 84,7% dos estaduais.

Problema negligenciado

Não é de hoje que profissionais da área da medicina e da saúde pública vêm chamando a atenção para o baixo nível das instituições de ensino médico, muitas das quais com mensalidades entre 10 mil e mais de 15 mil reais.

De acordo com o estudo Demografia Médica 2025, coordenado pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), nos últimos 20 anos, o Brasil mais que triplicou o número de escolas médicas, saltando de 143 em 2004 para 448 em 2024. 

Ainda segundo o estudo, o crescimento foi impulsionado principalmente pela Lei do Mais Médicos (2013), que incentivou a abertura de cursos, especialmente no interior, sob pretexto de aumentar a presença desses profissionais nas áreas do país com menos profissionais. Desde então, foram criadas, em média, 2.538 novas vagas de medicina por ano, embora a concentração de médicos pelo país não tenha se alterado.

Faculdades de medicina privadas

Há cerca de 600 mil médicos em atividade no Brasil, número que deverá ultrapassar 1 milhão nos próximos dez anos. 

Entre os principais problemas de boa parte dos cursos de graduação em medicina privados está a falta de instalações adequadas, como laboratórios para os níveis básicos e hospitais-escola para o treinamento de alunos.

Também há um número baixo de professores com formação acadêmica qualificada para tantos estudantes, o que compromete a qualidade de ensino.

Outro problema grave é a falta de vagas para residentes para tantos formandos. A maioria das faculdades de medicina não oferece cursos de residência, essenciais para a formação de especialistas.

Não à toa, proliferam cursinhos particulares para preparar médicos para as provas de residência, e não é incomum assistir a jovens que levam dois ou três anos para conseguirem uma vaga.

Assim, o país vê hoje um grande número de recém-formados que, sem aprovação em exames de residências, se aventuram no serviço público sem terem experiência ou qualificação para atenderem a população.

Embora os cursos tenham se expandido para o interior do país, o Sudeste ainda concentra o maior número absoluto de médicos, com 334.105 profissionais, e a maior razão de médicos por 1000 habitantes (3,77). Nordeste e Norte, por outro lado, apresentam, respectivamente, 2,21 e 1,70  médicos por 1000 habitantes. 

Pensamento mágico

Obviamente, os problemas mencionados não se restringem apenas às faculdades privadas, tampouco aos cursos com menos de 20 anos. Mas é notável o crescimento de cursos privados sem qualidade de ensino nas últimas décadas.

Essas instituições são campeãs na oferta de vagas: 91,5% das novas vagas abertas desde 2014 pertencem ao setor. Em números absolutos, as vagas aumentaram de 15.146 para 38.450 em dez anos, enquanto as públicas cresceram pouco, passando de 8.359 para 10.041 vagas no mesmo período.

Pensar que o simples fato de abrirmos mais vagas no interior do país será suficiente para levar profissionais para regiões com menos profissionais é no mínimo inocência.

Um aluno que tenha gastado mais de 10 mil reais mensais em sua formação profissional, durante seis anos, dificilmente irá aceitar um emprego que não tenha plano de carreira e salário atraente.

Desse modo, o atendimento do SUS e de clínicas e planos de saúde populares fica quase que totalmente restrito a médicos sem formação qualificada, a maioria recém-formada e inexperiente.

De quem é a responsabilidade?

É fácil jogar a responsabilidade nos alunos. No entanto, nos últimos dias, vários centros acadêmicos e alunos das faculdades que tiveram os piores desempenhos foram às redes sociais se manifestar.

Não é de hoje que representantes de alunos exigem melhorias das faculdades privadas, sem resposta. Entre as cobranças estão investimento na estrutura física e no corpo docente das instituições.

Nesse sentido, é importante que os cursos mal-avaliados sofram punições, como prometeu o ministro da Educação, Camilo Santana. Segundo o ministro, as instituições sofrerão sanções que vão desde a redução do número de vagas até a suspensão do Fies e outros programas federais.

Se as faculdades têm responsabilidade, o Estado também não pode se omitir. Sua função não é apenas fiscalizar os cursos, mas resistir ao lobby das instituições privadas, estabelecer critérios uniformes e uma regulação eficiente, para que os novos cursos estejam correspondam às necessidades da população e, sobretudo, do SUS.

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